À MEMÓRIA DE FAFALI KOUDAWO

Este faz parte do rol de privilégios que todos certamente preferimos não ter, ou pelo menos não exercer… o de falar em despedida de um amigo e sobretudo de alguém com esta estatura e dimensão…
Fafali Koudawo era grande em todos os domínios e competências. Enquanto homem, enquanto analista ou enquanto académico: cientista político, historiador ou sociólogo. Quem tinha a oportunidade de conversar com Fafali descobria tratar-se de uma mente ordenada e muito desenvolvida.

Quem lê seus escritos e dissertações, certamente compreende uma linha de pensamento coerente e objectivo. Quem observou sua postura terá se surpreendido com a sua deslumbrante humildade, mesmo que guardando sempre uma impressionante verticalidade.

Fafali era intelectualmente honesto. Tinha convicções e as defendia de forma assumida e declarada. Mas tinha sobretudo uma linha de análise bastante estruturada. Conhecia a história das coisas, ia à raiz das substâncias, tinha um rol de referências e sabia comparar as grandezas. Associava a esta elevação um pragmatismo que sempre nos surpreendia.

Fafali era crente e cristão, e por isso se achava sempre limitado, mesmo naqueles tributos em que todos lhe reconheciam Excelência.

Hoje, tudo parecerá claro e evidente… mas também terrivelmente tardio…

Fomos muito infelizes ao retardar o direito do Fafali portar e exibir a nacionalidade. Ele conquistou e suplantou esse direito pela identificação com os valores mais nobres que seguimos perseguindo para a construção da nação prometida; seus feitos e factos sempre o colocaram no pedestal da representação do que a Guiné teve de mais nobre e mais culto.

Hoje, o Conselho de Ministros acaba de outorgar a Fafali Koudawo, a título póstumo, o estatuto de cidadão nacional, com a esperança de redimir deste destino já fatal; cumprir o preceito de uma homenagem mais que merecida e nos justificarmos perante quem tem seu sangue e seu nome.

Mas, visamos ainda, enquanto membros desta entidade do poder dos homens, estancar uma distorção hereditária e social, conferindo aos herdeiros de Fafali, a plenitude dos direitos legais que este país manda aplicar. O resto, julgamos saber, o Fafali já os legou pelos ensinamentos de que os não terá poupado.

Fafali era um «Homem Grande» e estes normalmente não se circunscrevem a espaços, a momentos, nem às vontades. Estes limitam-se a existir e, na sua interação quotidiana com a realidade, vão deixando impressões e sinais que aqueles que os seguem, muitas gerações seguintes têm de decifrar, para de facto acederem aos ensinamentos de incalculável valor e pertinência assim deixados.

Ellen G. White, numa dedicatória no seu livro “o último trem” dizia: «a maior necessidade do mundo é de homens - homens que no intimo da alma sejam verdadeiros e honestos; homens que não temam chamar o pecado pelo seu nome exacto; homens cuja consciência seja tão fiel ao dever como a bússola o é ao pólo; homens que permaneçam firmes pelo que é recto, ainda que caiam os céus».

Flavien Fafali Koudawo, Professor, amigo, conterrâneo. Pai, marido, irmão, Camarada. Foste demasiado cedo para tantas tarefas que ainda cá tinhas. Eu próprio questiono: quem agora responderá às várias inquietudes e as interrogações que te dirigia; Quem poderá cuidar em teu lugar e à tua maneira do Colinas do Boé; Quem apontará com a tua precisão e acutilância mas também com a tua neutralidade, o ponto de equilíbrio do nosso incessante debate político. Quem lerá os meus rabiscos sempre desordenados e com dois toques fazê-los textos.

Sim, arriscamos ficar de novo órfãos, apesar de que, 1973 já devia nos ter ensinado ser esta a sina de quem tem Homens tão grandes.

Parece irem sempre mais cedo que o seu tempo. Que seja então porque Deus tem outras missões a lhe confiar e que estas incluam o olhar por nós, por este seu povo, repartida por vários quadrantes, da Guiné e do Togo, pela África e um pouco por todo o mundo.

Até sempre Fafali!

© Domingos Simões Pereira