JOMAV: O RAIO-X E A QUEDA DE UMA ILUSÃO


A decisão corajosa dos juízes do Supremo Tribunal de Justiça inaugurou um contexto fértil de luta em prol da democracia. Podemos dizer, é certo, que os juízes limitaram-se apenas a cumprir o que está plasmado na nossa lei fundamental. 




A verdade é que foi mais do que isso. Se considerarmos as pressões e os aliciamentos a que estiveram sujeitos, podemos e devemos congratularmos com uma decisão que tem a particularidade de, por um lado, reforçar o nosso imberbe sistema democrático e, por outro, de reforçar o edifício judicial, que se quer cada vez mais consistente e actuante.

Porém, os mais cépticos têm toda a razão quando afirmam que este grande passo, por si só, não constitui motivo para festejos antecipados. Os riscos de subversão do nosso Estado de direito democrático, continuam presentes, na medida em que o mais alto Magistrado da Nação pretende continuar embarcado na sua deriva despótica. Mais do nunca, é chegada a hora de fazermos um raio-X político ao Presidente JOMAV - o neófito de ditador. Fazendo um raio-X, percebemos o que representa, de facto, a Presidência JOMAV.

1. Incoerência moral e populismo

Em termos políticos, JOMAV representa muito pouco. Chegou à Presidência embandeirado pela máquina do PAIGC e pela associação ao capital político do Domingos Simões Pereira. Na caminhada para o poder, foi inflacionando a imagem de homem de trabalho, austero e incorruptível. Uma imagem completamente falaciosa e ilusória.

Hoje, o Presidente JOMAV fala de peito cheio da corrupção e peculato, "esquecendo-se" que esteve preso, pouco antes da sua candidatura à Presidência, sob a acusação desses mesmos crimes. As provas sobre os alegados desvios de fundos, enquanto tutelava o Ministério das Finanças, vazaram na internet, tornando-se acessíveis a qualquer cibernauta. Em nenhum momento, apresentou elementos que fundamentassem a sua suposta inocência. Se o Presidente JOMAV fosse o poço de virtudes que tanto prega, provaria a sua inocência antes de ser candidato à Presidência da República. Apoiou-se na presunção de inocência para chegar ao poder e, consequentemente, garantir a sua imunidade.

A caminhada para o poder, porém, não se fez de forma gratuita. Para chegar a ambicionada imunidade, o Presidente JOMAV teve que fazer concessões e alianças. Considerando a sua fragilidade política teve, certamente, que prometer avultadas compensações aos seus aliados - nada mais, nada menos, que alguns dos mais perigosos e incompetentes políticos da nossa praça. Criou-se, na Presidência, uma espécie de consórcio para a captura do poder e, por inerência, do país.

Do consórcio fazem parte elementos que venderam o seu apoio em troca da promessa de virem a ocupar lugares privilegiados na máquina do Estado. Para a consumação dessas promessas era fundamental derrubar o governo democraticamente eleito para, de seguida, instituir um governo de iniciativa presidencial.

Um governo onde quem manda é o Presidente JOMAV é mais fácil pagar as dívidas do frágil e assustado Presidente JOMAV.

A fragilidade política do Presidente JOMAV evidencia-se a cada dia, tanto internamente como internacionalmente. No plano interno, nunca houve tanta oposição a um Presidente da República (mesmo incluindo os presidentes golpistas). No plano internacional, nunca um Presidente foi tão criticado e alvo de tantos recados subliminares. Perante este quadro generalizado de descrédito, o Presidente JOMAV, encurralado, refugia-se na baixa política e no populismo barato. Como exemplos temos as recentes visitas aos hospitais, onde ofereceu 6/7 botijas de oxigénio e as plataformas itinerantes que circulam pelas ruas de Bissau a solicitar o apoio do povo ao Presidente JOMAV. Esta abordagem política agrava-se na medida em que pressupõe que o povo é ignorante.

Ao pressupor a ignorância das pessoas, o Presidente JOMAV revela-se o mais ignorante dos guineenses.

Se JOMAV fosse amado pelo povo, não precisaria mendigar esse mesmo amor. Muito menos com truques baratos que ofendem a nossa inteligência.

2. Deriva despótica

O acórdão do Supremo é claro. O poder deve ser devolvido ao PAIGC, o vencedor das eleições legislativas. A ilegalidade do Presidente da República foi suprimida na justiça. Qualquer político, digno desse nome, estaria, neste momento, a tirar as devidas ilações políticas. Mais uma vez, a fragilidade política do JOMAV vem ao de cima. O posicionamento que tem tido nos últimos dias, indicia que não só não tirará as devidas ilações, como também continuará a sua deriva despótica.

Mas afinal o que motiva esta insistência subversiva do Presidente da República?

É claro que o Presidente JOMAV não está interessado em prestar um verdadeiro serviço público e muito menos em ser uma liderança que reforce as instituições e que promova a paz social. O país encontra-se há mais de 30 dias sem governo – algo inédito na nossa história democrática – e o Presidente, visando apenas a satisfação dos interesses egoístas do consórcio que encabeça, prepara-se, justamente, para prolongar a crise.

Existe um dado importante que nos poderá sugerir pistas para a descodificação desta nossa crise. O Presidente JOMAV tem muita pressa em subverter a ordem democrática...diria até, demasiada pressa.

Consideremos o seguinte:

a) JOMAV começou a engendrar esta crise artificial, assim que tomou posse.

b) Recusou qualquer hipótese de diálogo construtivo com o governo.
c) Mentiu aos deputados da nação, dizendo que nunca quis derrubar o governo.
d) Um mês depois, derrubou o governo sob falsos pretextos. Mentindo, outra vez, descaradamente.
e) Indigitou sorrateiramente e ilegalmente um novo PM. Este jura-lhe fidelidade sem reservas nem complexos.
f) Tenta manipular (de forma amadora, diga-se) as interpretações da lei.
g) Sofre uma pesada derrota com a decisão do Supremo e não toma medidas em relação aos conselheiros e assessores que o acompanharam na decisão pela ilegalidade.
h) Não pretende acatar a decisão do Supremo Tribunal de Justiça.
i) Arriscou tudo! Tirou o véu e mostrou o verdadeiro JOMAV, colocando-se numa situação de isolamento face às forças vivas do país e aos parceiros da sub-região.
j) Desrespeitou o povo ao abster-se de fazer uma comunicação ao país. Algo que se impunha, considerando a paralisação irresponsável que provocou.

Toda esta situação indicia que o neófito de ditador tem sofrido pressões do consórcio que lidera. Afinal, já passa da hora de começar a pagar dívidas. Os pseudo-políticos do consórcio estão impacientes. Já é tempo de ocuparem pastas e fazem pressão ao "líder". Até porque, segundo consta, alguns têm informações privilegiadas sobre o percurso do Presidente. Informações que podem revelar, ainda mais, o verdadeiro JOMAV.

Em breve, poderemos ter dissidências no consórcio. O "líder" está encurralado. Tem de agir depressa. Tem de continuar a sua deriva despótica para garantir o quinhão dos pseudo-políticos, no assalto que está a fazer ao país.

Se não o fizer, correrá o risco de cair de vez. Afinal representa muito pouco, cada vez menos.

A ambição desmedida começa a custar muito caro ao projecto de ditador.

O epílogo aproxima-se!
Hawa Dolo 

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