“IMPUNIDADE NA GUINÉ EXPLICA-SE PELA INÉRCIA DO ESTADO E PELA CULTURA”

O Porta-voz do Estado-Maior General das Forças Armadas da Guiné-Bissau, Daba Na Walna, afirmou esta quinta-feira, 30 de Julho, que uma parcela da impunidade no país explica-se a par da inércia do próprio Estado e pelos preconceitos culturais.


O militar falava no âmbito da segunda sessão de um ciclo de conferências sobre os desafios estruturais do sector da justiça na Guiné-Bissau, organizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP).

Para Daba Na Walna, se o país voltar um pouco para a história, começar pela independência olhando para forma como as coisas correram e como a população estava dividida entre os que mandam e os que não mandam, pode se chegar à conclusão que, “a par da inércia do Estado, a impunidade explica-se igualmente pela própria cultura”, declarou perante cerca de uma centena de participantes.

“Temos um problema cultural. E para mim a impunidade remete-se a isso e encaixa-se à educação. Temos um ensino mau. Vamos até à décima segunda classe, continuamos analfabetos e não dominamos o português”, acrescenta.

Neste particular, o Brigadeiro-general alerta para a necessidade de o português ser encarado para todos como a língua de acesso à ciência “e quando não a dominamos, não dominados consequentemente a ciência e esperamos ter um país maravilho, o que segundo o militar não é possível”.

De acordo com Daba Na Walna, o maior problema de justiça da sociedade guineense é o problema cultural e cita exemplo de preconceitos culturais que podem, na sua visão, potenciar a ação dos criminosos.

Referindo-se aos crimes económicos e crimes de sangue, Na Walna afirmou ter visto alguém atropelado por um autocarro por negligência e são os próprios familiares da vítima que se apresentam perante às autoridades para dizer que a origem da morte tinha a ver com a obra de um feiticeiro”, insistiu.

No entendimento do militar guineense, o indivíduo que deve ser punido por ter cometido um crime de forma negligente e a punição que lhe é aplicável servir para que no futuro não haja a negligência e chamar a atenção a potenciais criminosos de modo a absterem-se de fazer o mesmo.

“Mas se o cidadão comum acreditar que aquilo que aconteceu tem uma explicação transcendental, mandar para prisão o criminoso não surtirá efeito dissuasor a essa comunidade porque simplesmente os membros da mesma não acreditam que o indivíduo em causa é o verdadeiro autor do crime”, assinala.

Por: Filomeno Sambú
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