CLARA DI SABURA: DA POESIA A CRITICA SOCIAL, O CINEMA DA GUINE-BISSAU - FILME COMPLETO


“Clara di Sabura” nasce de um poema de Mussa Baldé, jornalista de profissão e literato por compulsão, que procurou verbalizar o que muitos já viam, a forma como as novas gerações da capital do país se perdem em vidas esvaziadas… Ainda em plena aprendizagem, o cinema da Guiné-Bissau faz o seu caminho, na senda promissora que, de há muito, o grande Flora Gomes vem abrindo. 

Ao contrário do processo criativo que é dado como certo na Sétima Arte, “Clara di Sabura” – a segunda obra a ser totalmente produzida neste país lusófono – cresce a partir de um poema falado, de um alerta em forma literária, apontado principalmente às jovens daquele país. O renegar da sua herança cultural e o privilegiar do facilitismo em detrimento do trabalho surgem como pano de fundo. “Clara das Festas” também chegou às telas em Cabo Verde. 

Às dificuldades encontradas pelo caminho – falta de financiamento, de actores qualificados ou técnicos especializados –, a equipa responsável por este projecto respondeu com persistência, e o desejo de mostrar, dentro e fora, que a Guiné-Bissau também é uma terra de gente criativa, que ali também se perseguem sonhos e, acima de tudo, que se concretizam, apesar do derrotismo que tanta vezes silencia os projectos ainda antes de começarem. 

“Clara di Sabura” nasce de um poema de Mussa Baldé, jornalista de profissão e literato por compulsão, que procurou verbalizar o que muitos já viam, a forma como as novas gerações da capital do país se perdem em vidas esvaziadas de um propósito que “vá além da diversão nocturna, das telenovelas ou do mundo das aparências representado pelas roupas de marca com que passeiam pelas ruas de Bissau”, diz. A “loucura” que foi este projecto – como tantas vezes ouviram – acabou por resistir à indiferença das principais instituições do país, apoiado na boa vontade de muitos anónimos e de uma equipa de amadores que quis ser o mais profissional possível. O grosso dos actores desta película chegou das escolas e universidades, sem qualquer formação ou experiência ao nível da interpretação – apenas quatro dos actores eram profissionais. Mas o filme está aí, prestes a ser legendado em português, francês e inglês, quase a chegar junto das comunidades imigradas e a mudar um pouco a imagem que o mundo tem da Guiné. 

Mas, como diz Mussa Baldé, “para que se mude essa imagem, nós temos que ser os primeiros a fazer por isso”. E é nesse contexto que surgem mais dois projectos que apostam no futuro: “Tony Ronkanti”, na mesma direcção que “Clara di Sabura”, mas tendo os rapazes como elemento central, e “Senhores de Bissau”, caracterização de “um grupo de senhores que se julgam donos do país”, afirma. A construção – ou neste caso, reconstrução – de um país pode fazer-se de muitas formas. Trabalhar a auto-estima das suas populações é certamente uma delas, e esta será provavelmente a maior conquista deste filme, “mostrar aos próprios guineenses que também se fala do seu país por motivos positivos”. Da poesia à solidificação do sentimento nacional, com o cinema pelo meio. 


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